Caminho à beira mar numa envolvente monotonia que me carrega faz algum tempo. Observo o teu movimento de consistente incerteza que unido ao meu vai carregando energia de batalhas passadas de uma guerra de infindável beleza. Sentado aos teus pés tocas-me como há muito tempo não fazias. Envolves-me no teu carisma branco e perfumado trazendo noticias de tudo que envolves. Comunicas comigo num eloquente segredo, esquecendo todos os que estão, num final de tarde aquecido por um Sol alaranjado que insiste em se atrasar. De olhos fixados na fronteira do tempo e da forma, relaxo sob o cantar de gaivotas que nos acompanham, entoando vozes terceiras que fazem de ti algo maior. Insisto em tremor em abraçar-te fazendo-te parte de mim, assumindo-me igualmente grandioso e forte e capaz. O conclave voando canta opiniões multiplas sob a possibilidade de ficares mais um pouco. Entretanto o juiz de tudo isto liberta-nos da sua luz, espalhando-se em coágulos finos e estreados num céu turbulento. O vendo, percebendo tamanha imagem, une-se à vontade de tornar limpida a minha crença. O Sol desaparece... sinto um arrepio assinalando o temporal que vem... mas tu ficas. Em crescente afogas-me no teu sal e baloiças o meu mundo como ninguém. Sinto-nos perto... Durante horas dançamos de grão em grão numa melodia que as tuas ondas zumbam sem cessar. Sou levado ao engano de me sentir um conquistador de ti.. tamanho erro...
Sorrio à tua partida por saber que te vivi...
Sem razão aparente escorres-me das mãos sem vestígios de espuma. Deixas para trás uma planície brilhante que reflecte agora a luz de uma Lua já alta que convida ao prazer. Recosto-me e espero-te, numa esperança quase certa de regresso. Conto no céu inúmeros cenários de julgamento que, sob desenhos caprixosos, questionam a minha vontade.
E eu fico...
Adormecido pelo tempo que passou, perco-me em sonhos que me levam para longe em busca de ti. Ao fim de uma longa espera... Sinto-te.. Num sincronismo destinado também o primeiro raiar de dia surge para pintar este quadro tão belo que poderia fazer arrepiar Scarlatti no topo da sua fé. Sinto valer a espera e a decisão, ... envolves-me mais uma vez numa espuma fria... Deitado sob uma areia virgem e alisada por ti na noite anterior, olho o vazio em busca de uma onda diferente. Sinto valer o tempo e a ira. Sinto-me novo. Os espectadores reaparecem tornando o cenário real. Apesar de te saber perene e compreender o teu regresso constante a cada dia, vale a certeza.
Há momentos que contornam o tempo e o espaço. Este é um deles...
PedroftRamos
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