domingo, 28 de setembro de 2008

Depois da bonança tempestade

Depois da bonança tempestade
Depois do sorriso a ira
Depois do beijo a verdade
Do olá a despedida


Há dias num momento de especial coordenação, lia uns quantos versos enquanto escutava o jazz improvisado da trompete de Davis em So what. Estava feliz, balançado, envolto... Parecia um daqueles dias de Janeiro em que o robe é apenas um acessório na frente da lareira, mas que ainda assim lá está pelo seu ar confortável e amistoso. Anyway era Agosto, o sol brilhava e eu era uma agulha num palheiro de papeis rabiscados a lápis ou a canetas de várias cores, todos eles bem datados e com a bela assinatura redonda de "PedroRamos".

É engraçado ver a evolução na forma como escrevemos, quanto mais não seja porque a poesia é o espelho da alma, e assim pelos seus olhos vemos de quantas cores já fomos feitos.
O menos engraçado é que apesar do encarnado e do azul da redacção a temática num determinado período era da cor do dito dia de Janeiro só que com gripe e chávena quente na mão. A dimensão do escafandro era de tal forma constrangedora que nem a entrada de Coltrane parecia abanar o momento. Olhei para as datas e tentei um daqueles magnificos flash backs em que percebemos realmente o que aconteceu. Lá estava eu na magnifica maquina do tempo sorrindo à passagem dos anos, ao edificio que ainda existia, ao jornal sem bombistas nem crises e.. vi o tal escritor meio despenteado, de caneta na mão saltitando entre os dedos, olhando o céu em busca da palavra certa. Parecia um ser humano normal.. mais novo, mais magro, mais loiro, mais... disperso, mais...
Aproxeimei-me e lá estavam os versos sendo imaginados e escritos a tanta velocidade quanto a mão acompanha o pensamento. Mas eram tristes... Olhei-o nos olhos e eram brilhantes, sorridentes, alegres... mas os versos...

Agarro outro papel, este a lápis e de caligrafia terrível. Era uma simpática melodia de acordes leves e saudáveis lembrando uma brisa de Maio. Entro na máquina e...

Sinto areia nos pés.. à volta viam-se crianças a brincar, jovens a jogar á bola, raparigas a tagarelar e o "afamado" escritor afasta-se do jogo para se lançar num papel meio amarelado a escrever por cima da areia (explica a caligrafia). Escreve e reescreve levanta-se dá uma ou duas voltas ou três e volta a escrever. No final, guarda o papel e corre de novo para ocupar a sua posição... hmm strange but ok..

Um outro e ... uma serenata.. quente, encarnada e feliz...

7a.m. numa varanda sobre a aldeia e mar ao fundo... os pássaros tocam a melodiasob o qual escreve como se nada fosse, numa naturalidade experimentada. Os versos surgem numa penumbra calma, toque seguro e os olhos recorrem a lembranças breves mas bem focadas, em sobriedade absoluta.





A musica termina e a busca do crescimento também ... No final percebo que poderia pesquisar por um milhão de explicações e cores que construiram o quadro para o aperfeiçar mas... eu sempre fui mais de kandinskys ...

sorrio... o post tinha outro fundamento mas acabei por lembrar este momento..

Ontem foi um dia de boas noticias por diferentes vias de comunicação. Talvez tenha sido essa a razão para prolongar o sono. Hoje depois do processamento de tudo voltei a pegar nas páginas de memórias e abalei um pouco o entusiasmo.

Ainda assim tenho a paleta recheada e um novo davis para descobrir. Existem sempre momentos menos bons mas...

nas "palavras" do génio...

SO WHAT ?

1 comentário:

Vizinha disse...

Pedro,

foi bom passar por aqui e ver que estás bem e que o Verão correu bem.

Beijinhos,

Madrinha (CC)